O pai de um dos meninos envolvidos no caso da lista misógina do Colégio São Domingos, em Perdizes, afirma que o garoto errou, mas diz que as mensagens não falavam sobre “meninas estupráveis”, como foi divulgado por parte dos alunos e pais da escola nesta semana.
A direção publicou nota em que não explicita o termo que foi usado, mas fala da existência de “um conjunto de mensagens, compartilhadas por estudantes em grupos de WhatsApp” que tinha “caráter misógino” e “ofensivo” às alunas. E informa que aplicou sanções e tem trabalhado o tema com a comunidade escolar (leia mais abaixo).
Cinco meninos do 9º ano foram suspensos por participar da lista ou por mandar figurinhas com referências a estupro, como com fotos do americano Jeffrey Epstein, acusado de liderar uma rede de exploração e tráfico sexual de menores de idade.
Ao Estadão, o pai afirma que o filho está isolado, com medo de sofrer violência na escola e sob acompanhamento psiquiátrico. Segundo o pai, que pediu para não ter o nome revelado para preservar a identidade do garoto de 14 anos, a lista que ele fez com colegas tinha conotação sexual e ranqueava meninas por seus atributos físicos, como seios e nádegas. Ainda elencava as que saberiam ou não fazer sexo oral.

“Ele fez uma carta de desculpas para todas as meninas da turma e falei para ele pedir desculpas para todas as mulheres que conhece, para a mãe, para avó”, conta o pai. Segundo ele, a lista foi feita em novembro com dois amigos e apagada em seguida porque os garotos se arrependeram.
“Não quero passar pano. Foi um misto de imaturidade com curiosidade sexual. Eu disse a ele que o perdão dele será demorado e ele terá de mostrar isso com gestos”, afirma o pai. “Assim, ele vai provar para elas que entendeu que errou e que vai ser uma pessoa melhor.”
A reportagem não encontrou pais ou alunos que tenham visto as mensagens. O Estadão apurou que a gestão da escola também informou em reunião com as todas as famílias do 9º ano nesta segunda, 16, que não teve acesso à relação que mencionaria meninas estupráveis, mas ouviu relatos sobre esse conteúdo. No encontro, segundo pais, a direção tratou o assunto com rigor, comunicou as sanções e discutiu a criação de um grupo conjunto para “o enfrentamento das mídias digitais nocivas e da banalização da violência, especialmente a que atinge as mulheres”, diz o comunicado da escola.
O pai conta que, na semana passada, a existência da suposta lista misógina voltou à tona em conversas na escola e o filho chegou a contar a amigos sobre a relação que fez dos atributos físicos das meninas. Na mesma semana, em conversas em um grupo de WhatsApp com todos os alunos e alunas do 9º ano, alguns meninos passaram a postar figurinhas de cunho sexual.
“Foram figurinhas do Epstein e uma outra com um homem dizendo ‘vou te estuprar”. As meninas ficaram estarrecidas e foram falar com a coordenação”, conta. “Ninguém sabe como isso começou, mas acredito que quando se escutou sobre uma lista e sobre estupro, ambas do 9º ano, as pessoas juntaram as duas coisas e a história correu a escola inteira como se a lista fosse de meninas estupráveis”, afirma.
Pais de alunos da escola contaram à reportagem que as mensagens de caráter misógino causaram comoção e revolta principalmente entre os alunos do ensino médio. Eles, então, organizaram um protesto na sexta-feira, 13, em que meninos e meninas foram ao colégio vestidos de roxo – cor que simboliza a luta feminina por justiça e igualdade de direitos.
O pai conta que o menino não tem ido à escola – foi apenas nesta quarta-feira, 18, para ler a carta de desculpas para as meninas. Nesses dias em que ficou suspenso, o pai pediu que o adolescente estudasse sobre o caso Epstein. “Ainda bem que as meninas hoje são criadas no movimento feminista, de partir pra cima, isso é muito necessário, a gente vê os absurdos que estão acontecendo.”
Ele afirma ainda que vasculhou o celular do filho, mas não conseguiu achar as mensagens apagadas. “Fiz uma pesquisa profunda para ver as mensagens e saber se ele e os amigos usavam a palavra estupro como brincadeira e não encontrei nada.”
Em nota ao Estadão, a escola afirmou que as mensagens sobre a qual tomou conhecimento a partir de relatos estão “em total desacordo com os princípios e valores desta instituição de ensino”. O São Domingos diz ainda que tem conversado com os estudantes envolvidos, com as famílias e destaca haver “amplo comprometimento dos educadores na discussão do tema em sala de aula”.